Uma reflexão sobre o post "Para Além do McMindfulness"

O texto abaixo é de autoria de Elisha Goldstein, Phd, e foi originalmente publicado em inglês no site HUFFPOST HEALTH LIVING, no dia 12/07/2013​. O link para o texto original está no final do texto. A tradução foi feita por Tiago Tatton, da Iniciativa Mindfulness.

 

Desde que Mindfulness começou a abrir suas asas na cultura ocidental, houve o temor de que a coisa fosse simplesmente diluída e empacotada para venda por capitalistas gananciosos querendo engordar suas contas bancárias. Caso isso acontecesse, inevitavelmente, seria apenas mais um desses modismos que o público logo se cansa e abandona. Um dos alertas mais cautelosos sobre o assunto foi um texto publicado no blog The Huffington Post chamado Beyond McMindfulness. Embora o sentimento de mercantilização de Mindfulness enquanto uma mera técnica comercial esteja vivo e pulsante, de modo que a advertência continua óbvia, é importante não jogarmos o bebê fora junto com a água do banho.

 

A absorção de uma versão secularizada de Mindfulness na cultura ocidental e até mesmo nos níveis mais altos dos negócios, da medicina, da saúde mental, da educação e dos esportes tem sido uma fonte de grande transformação para milhares de pessoas. Com fortes laços às antigas tradições budistas de Mindfulness, Jon Kabat-Zinn foi aquele que habilmente achou uma maneira de secularizar e introduzir a prática no mundo da ciência, da medicina e da saúde mental. Por simples definição, o Mindfulness-Based Stress Reduction (MBSR) é um produto que as pessoas adquirem como um pacote de serviços para redução de estresse. Contudo, ele mantém elementos importantes da tradição original de Mindfulness e, de maneira quase subversiva, pretende desenvolver uma transformação ainda maior em direção à ação correta, harmonia social e compaixão.

 

Na verdade, os programas de Mindfulness mais populares no mundo dos negócios foram criados por pessoas com uma compreensão adequada das antigas raízes da prática, e que não são apenas sujeitos " envoltos em uma aura de carinho e humanidade". Estes programas incluem o Mindfulness at Work, o Mindfulness-Based Stress Reduction (MBSR), o Search Inside Yourself (SIY) e o programa Mindful Leadership, liderado por Janice Marturano.  Janice, por exemplo, tem uma prática extensa de Mindfulness e capacita líderes de modo que possam primeiro compreender o lugar e a intenção da prática em suas vidas - e não simplesmente para “controlar” os seus empregados . Um líder consciente vai além do desejo imediato de controlar as coisas na velocidade mais rápida possível. Eles sabem que isso não funciona.

 

Em última análise, um programa de Mindfulness tem de ser comercializado para atender as necessidades das pessoas onde elas estão. O poeta indiano do século 15, Kabir, disse: "onde quer que esteja esse é o momento". Para as pessoas experimentarem Mindfulness, de certa forma, é razoável “empacotá-lo” para a redução do estresse, para a redução das taxas de recaída da depressão, para aumentar o senso de produtividade, o foco de atenção ou a redução da pressão arterial. Esses elementos permitem que as pessoas sejam atraídas para Mindfulness vivenciando uma experiência verdadeiramente benéfica que possa guiá-los em direção ao que inicialmente buscam.

 

Imagine que você entra em uma empresa qualquer e que lê, logo na entrada: "Aqui somos treinados em um programa que integra antigas práticas budistas e incorpora as diretrizes morais e éticas para o benefício de todos os seres". Eu acho que uma empresa dessas não atrairia muitos consumidores. Mas, com certeza, os principais programas de Mindfulness são ministrados por pessoas que detêm esses valores e tentam integrá-los de uma forma que possa ser entendida e aceita mais facilmente por todos.

 

Um número crescente de estudos (incluindo revisões sistemáticas e meta-análises) aponta para os benefícios de Mindfulness não apenas na saúde geral, mas também ganhos corporativos e sociais que decorrem da integração de Mindfulness no local de trabalho. Um estudo sobre o programa Mindfulness at Work (MAW), realizado pela Duke Integrative Medicine, pela empresa Aetna (o CEO Mark Bertolini, aliás, é praticante budista de longa data) e pelo grupo do eMindful mostrou que os funcionários que passaram pelo programa experimentaram redução do stress, aumento da produtividade e redução dos custos médicos. Este programa, por exemplo, integra qualidades importantes de Mindfulness, incluindo a regulação da atenção, o desenvolvimento de autocompaixão e da compaixão, além da importância de desenvolver o senso de comunidade. Eu sei disso porque eu mesmo projetei o programa, e as transformações dos funcionários que participaram da pesquisa vão muito além da redução do estresse. Para mim, isso é reconfortante e animador.

 

Em última análise, a razão pela qual Mindfulness não se tornará apenas uma tendência é porque muitas pessoas neste exato momento estão experimentando seus benefícios não apenas para redução do stress, mas para tomar contato com o que realmente importa em si mesmo. Neste contexto, a prática é intencionalmente não vinculada ao budismo, e talvez por isso devêssemos chama-la de "Mindfulness ocidental". Fato é que mais e mais pessoas estão sendo treinadas sob uma perspectiva mais secular, mas que mantém a intenção de ser um benefício para além do ego.

 

Existe agora uma revista chamada MINDFUL que explora essas perspectivas mais seculares da prática, e que mostra como a sua inclusão está mudando a face dos negócios, da educação, da saúde mental, da medicina e de todos os diversos setores da vida. Animem-se! A revista foi criada por pessoas que têm um profundo apreço por Mindfulness como um movimento globalmente transformador (e não apenas McMindfulness).

 

Um dos slogans de uma conferência muito popular, chamada WISDOM 2.0, que é provavelmente a principal sobre Mindfulness e Mundo dos Negócios, diz: "como podemos viver com mais consciência, sabedoria e compaixão na era digital?". Minha sensação é de que a tendência NÃO está indo em direção ao McMindfulness, pois me parece mais profunda do que isso. Aquelas pessoas que querem juntar alguns trocados utilizando Mindfulness apenas como “pacotes de serviços” são vozes que provavelmente serão progressivamente abafadas pelos principais programas.

 

Eu realmente aprecio as advertências contidas em Beyond McMindfulness, pois precisamos estar cientes quando alguém utiliza algo muito sério apenas como modismo, negligenciando os vínculos mais profundos do propósito. Ainda assim, eu gostaria de deixar claro que o grande movimento de Mindfulness no ocidente, embora não explicitamente vinculado aos princípios budistas – pois precisa se equilibrar a uma realidade secular – me parece vital para indivíduos, empresas, equipes médicas, de saúde mental e de educação.

 

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