"Acho que você leu....pouco"

 

uma breve crítica ao artigo de Suzanne Moore publicado no jornal

inglês THE GUARDIAN em agosto de 2014 (disponível aqui)

No entanto, o texto da Sra. Moore - apesar de pecaminoso - levanta alguns pontos interessantes. E é por isso que ela tem confunde. Veja bem. Realmente há um entusiasmo exagerado ao redor de Mindfulness nos últimos anos. Hoje em dia tem "Mindfullness para tudo": "Mindfulness para não roer as unhas", "Mindfulness para perder peso", "Mindfulness para pular em uma perna só", etc. Uma bisonhice das quais várias pessoas não-capacitadas estão se aproveitando.....para QUE? Você já sabe ($$$$$, inserção profissional, status, etc). Tenho visto várias pessoas agindo sob a  alcunha de "terapeutas", "coachings" e outros títulos mais utilizando Mindfulness em empresas ($$$) e grupos diversos. Isso realmente pode levar três décadas de estudos sérios para o buraco! Essas pessoas - quando mal capacitadas (como está acontecendo muito) - certarmente podem agir de modo danoso e com absoluta falta de ética; ética esta que está - sim - implicada com os propósitos de Mindfulness. Ohhhhh....Sim, há propósitos éticos e amplo debate sobre valores humanos nos cursos de excelência em Mindfulness ao redor do mundo (UMass, Oxford, Bangor, etc). Se você, assim como eu, está dentro do movimento de Mindfulness, certamente já ouviu desde o Kabat-Zinn e o Mark Williams até a Vydiamala, a Neff, a Shapiro, Kornfield, Grabovac e outros professores falando sobre isso. Veja o exemplo do prof. Michael Chaskalson - p. ex. - que trabalha com mindful workplace (empresas). É um profissional altamente gabaritado (professor em Bangor!) e com uma dimensão ética formidável. Ele é um exemplo positivo de que é possível - mesmo em empresas - fazer um trabalho com Mindfulness aliado a valores humanos como compaixão, gentileza, auto-cuidado, respeito, etc. Certamente, a Sra. Moore nunca leu nada do Prof. Chaskalson. Há um excelente livro dele sobre o tema (aqui).

 

E a lista continua: 1 - Mindfulness para o exército? Para atiradores de elite serem mais eficientes em enfiar uma bala na cabeça do inimigo? Sim, isso é um problema real e precisa ser alertado. Nesse ponto, a Sra. Moore está correta - mas ela usa uma estratégia desleal para - ao final - te enganar. Ela mistura críticas necessárias e importantes com certas bobagens que demonstram sua limitação com o assunto.  Quem adora fazer isso é o meu ex-vizinho em Oxford, prof. Richard Dawkins, que gosta de falar que a "religião é a raiz de todo o mal" ou que "religiosos são como crianças estúpidas". Sabemos que não são todos os grupos religiosos que praticam o mal e também que nem todos os religiosos são pessoas ignorantes - "pero que las hay, las hay". É o famoso efeito de "jogar fora a bebê junto com a água suja". Não caia nessa. Não caia no papo da Sra. Moore.

Bem, agora que você entendeu as premissas que conduzirão esta crítica, vou explicar "tintim por tintim" qual a relação de toda essa conversa sobre LOS HERMANOS e ANA JÚLIA com o texto de Suzanne Moore - uma crítica pesada ao movimento de Mindfulness - que foi publicado (aqui) no prestigiado jornal inglês THE GUARDIAN.

 

A Sra. Moore explicita em seu texto que "Mindfulness não passa de auto-ajuda". Vamos começar por aqui. Primeiro: "é claro que é auto-ajuda" mas - me entenda - não no sentido pejorativo que é usualmente atribuído ao termo, mas no sentido de que, em última instância, o engajamento do participante é fundamental para os resultados. Motivação do participante é um dos principais componentes que definem a eficácia de uma intervenção de Mindfulness. Óbvio, não? Você pode imaginar que alguém que pretende aprender a andar de bicicleta ou nadar só conseguirá atingir resultados satisfatórios se estiver REALMENTE com vontade de aprender. Mindfulness não é diferente. É preciso se ajudar (aprender) para que o processo ocorra.

 

Segundo: não tem como ser mera "auto-ajuda" (no sentido pejorativo), já que Mindfulness surgiu dentro do ambiente acadêmico com Ellen Langer e com Jon Kabat-Zinn, em Harvard e Massachussets. O Sr. Kabat-Zinn, aliás, desde o início, fez questão de submeter o método à avaliação científica (ensaios clínicos randomizados). Claro, os estudos daquele tempo não eram perfeitos, exigiam maior robustez metodológica e - ainda hoje - nem todos os resultados apresentam resultados positivos para Mindfulness. Alguns estudos mostram que a intervenção possui eficácia limitada ou que realmente funcionam para uma parcela muito restrita da população. Dito isso, pense comigo: terapias duvidosas, envolvendo qualquer estratégia new-age ou "quantum woo" mal chegam ao universo científico. Quando chegam, ainda mais dificilmente são aprovadas para estudos mais complexos, como são os ensaios clínicos; enfim, acho que a Sra. Moore realmente LEU POUCO sobre Mindfulness. Além disso, estratégias comportamentais podem ser mera auto-ajuda no sentido pejorativo? Sim. Mas, nem sempre (está aí o "Não porque nem sempre" do Rodrigo Amarante.

 

 

Jon Kabat-Zinn

Bem vindo! Caso esse texto seja o seu primeiro contato com Mindfulness, recomendo fortemente que assista aos vídeos do meu amigo de INICIATIVA, Marcelo Oliveira (aqui). Caso já esteja habituado com o assunto, siga adiante.

 

Pois então - a frase que inicia esta crítica, além de uma introdução ao texto central, é uma breve homenagem que presto ao músico brasileiro Rodrigo Amarante. Nos dias de hoje o ruivo, ex integrante da banda carioca LOS HERMANOS, mantém uma promissora carreira solo, que vale a pena acompanhar (aqui). Quem está na faixa do trinta e poucos anos, como eu, sabe que os LOS HERMANOS estouraram na mídia com uma música daquelas que o refrão fica no ouvido: "Ohhh Ana Júlia, aaaaa, aaahhh ahhhh". A música ficou tão conhecida que o Beatle George Harrison aceitou participar da gravação de uma versão em inglês! (aqui). Você pode imaginar que, mesmo depois de mais de 10 anos de carreira, todos os shows dos LOS HERMANOS eram marcados por um coro: "TOCA ANA JÚLIA!!! TOCA !!!". Todos os shows? Parece que não. E é aqui que começa a lição sobre o tópico central de nossa crítica. Se você não sabe bem sobre alguma coisa, o melhor mesmo é não emitir opinião. O filósofo helenista, Pirro de Élis, dizia algo como: "É melhor suspender o juízo do que ficar falando bobagens por aí". Agora, o que isso tem a ver Mindfulness? A resposta virá mais a frente. Mas, primeiro, assista ao vídeo abaixo. Depois, você entenderá a importância que as frases "Não, porque nem sempre" e "Acho que você leu...pouco" assume nesta crítica

 

Você ensinaria Mindfulness para um pelotão de atiradores de elite? Ensinaria para um empresário que pretende aumentar os seus lucros? Qual é a sua intenção? Qual é a intenção deles? Isso é importante para você? Deveria ser!

Jocelyn Maclure, que já fez uma reação sobre o artigo da Sra. Moore (aqui), diz: "Suzanne Moore está irritada porque mindfulness agora está no mainstream e porque Wall Street e todo o Vale do Silício (incl. a google) estão utilizando a técnica como uma ferramenta de treinamento cognitivo. Ela também se aborreceu porque não gosta de contar grãos de arroz com Marina Abramovic (mindfulness e artes). Tudo bem, mas isso não faz de sua crítica sobre Mindfulness algo realmente sólido e convincente. Gostaria mesmo de saber se ela prefere que os médicos continuem a prescrever pílulas para o tratamento da ansiedade, de dor crônica e de TDAH, ou se ela acha que o melhor para mim é olhar repetidamente a minha timeline do Facebook ao invés de fazer um exercício de Mindfulness por 15 minutos. Ao contrário do que ela afirma, Mindfulness não é para "você pensar menos", mas, sem dúvida, é algo que pode te ajudar a se concentrar melhor".

É interessante notar que Sra. Moore não apenas demonstra ignorância a respeito dos conceitos e práticas básicas de Mindfulness mas também parece se aborrecer com coisas das quais todos aplaudem. Ela ainda acredita que Mindfulness é sobre "esvaziar a mente". Típico de alguém que nunca praticou com algum professor qualificado ou apenas leu um planfeto mal escrito sobre Mindfulness. O pior não é isso. Na crítica ela diz - por exemplo - que agora Mindfulness está nas escolas (como se isso fosse algo terrível !?!?) e que agora precisa competir com aulas de Zumba e Pilates. Bem, se Mindfulness fizer tão bem quanto dançar e se exercitar, eu já ficaria muito feliz, não? Ela utiliza argumentos para ridicularizar a prática; ela quer te convencer disso, profundamente. É desonesta a postura dela. Eu te diria o seguinte: tente você mesmo; leia os artigos científicos, procure um professor capacitado, e daí então, leia novamente o artigo da Sra. Moore. Você vai se surpreender.

Chade-Meng Tan, o cara por trás do Mindfulness no GOOGLE

Isso que estamos falando tem tudo a ver com a segunda parte do título da crítica publicado no THE GUARDIAN. Depois de afirmar que Mindfulness não passa de auto-ajuda, a Sra. Moore diz: "não ajuda em nada para mudar o mudo injusto em que vivemos". E aqui, atenção!!! Essa é uma crítica costumaz entre budistas que adoram "jogar pedras" em Mindfulness (algumas vezes, com razão). A Sra. Moore quer dizer que Mindfulness é algo apolítico, excessivamente neutro, e que "ignora as dificuldades estruturais em que vivemos". Entre os budistas, a coisa é um pouco parecida. Alguns dizem: "é insípido, não reforça a necessidade ética - os valores que podem transformar o mundo e as pessoas em coisas melhores". Bem, Mindfulness não é Budismo, e nem pretende ser. O Budismo é muito maior e complexo do que o Movimento de Mindfulness. O Budismo é o "Budha, o Dharmma e a Sangha", com todas as implicações metafísicas e práticas aí implicadas. Mindfulness é uma técnica de auto-regulação dos processos atencionais que - se levada à cabo - pode promover regulação emocional e flexibilidade psicológica. É simples (o que não significa dizer que é fácil de praticar e entender). Portanto, Mindfulness não quer conduzir você para "fora da roda do Samsara" ou que você assuma um "voto de Bodhisattva". 

 

Isso não quer dizer, contudo, que o movimento seja apático quanto à ética ou política. Eu estive em uma reunião no Parlamento Inglês e, antes do início dos trabalhos, eu pude ouvir dos organizadores a preocupação com as questões éticas. Eu ouvi, dentro do parlamento inglês, três crianças que voluntariamente falaram em como a técnica as ajudou em relação aos amigos e ambientes hostis da escola.

 

As lições de compaixão estão - cada vez mais - dentro dos protocolos de intervenção e não há - um sequer - professor sério de Mindfulness que ignore este ponto. Isso não impede, contudo, que pessoas saiam fazendo bobagens por aí com Mindfulness. Existem professores budistas que estão - igualmente - envolvidos com criminalidades diversas. Recentemente, um famoso professor budista foi alvo de um escândalo sexual (retratado em um documentário, inclusive). Ou seja, se mesmo no Budismo há tamanha barbaridade, imagine no Movimento de Mindfulness.

 

FINALMENTE, agradeço sua atenção em ler este relato até o final e peço que antes de emitir ou avaliar um julgamento assista a entrevista do Rodrigo Amarante até o final novamente. Aí, você também poderá dizer ao seu interlocutor: "não, porque nem sempre" e "acho que você leu....pouco". Abraços!

 

Tiago Tatton